1. anúncio e nascimento

Minha origem e destino carregam o riso na dor.
Fui concebido sem querer, no não querer.
Virgindade, brutalidade, espada em riste, corpo violentado, submissão.
Ela, minha mãe, uma escrava livre e ele, soldado invasor.
No silêncio, com cuidado e zelo, fui sendo gestado, inovador.
Nas ruas, escondido eu, ela ia e vinha, cheia de medo,
levando uma cruz dourada,
puxando o vestido, disfarçando sua esperança e mais ainda o seu temor.
Anunciado eu. Ela disse: "Não foi ele quem fez, sou eu que quero".
Botou um vestido bonito, perfumou-se, brincos nas orelhas,
saiu de casa e me levou consigo, cheia de graça.
Meu pai, coitado. Bonito, jovem, um jardineiro.
Acreditante em sonhos, se perguntava.
Não sabia ao certo o que ela fizera.
No ser calado e de olhar inquieto, revelava o seu jeito acolhedor.
Um homem justo, diria eu.
Ironia ou sina, nascido, deram-me o nome de Emanuel.
No cais, na esquina do bordel, naquela noite fria,
seis meses antes do que devia, dia do batista,
não sei porque, os marujos e as prostitutas
fizeram uma fogueira e soltaram um balão.
Levantaram pros céus a imagem do menino, nosso Senhor.
Assim, sem querer e no querer,
mesmo que só por um instante,
conseguiram, entre um trago e outro, alumiar a ruela e aquentar o frio.
E eu quietinho lá, no quarto-sala, enrolado em trapos,
presságio da paz ternura aos homens e às mulheres, embrutecidos.
E dizia, mesmo calado, que, apesar de tudo, Deus alegra o mundo.