2.4. bem-aventurado os famintos

Fiat lux. Eu vi.
Foi-se a aurora.
Derramado de brilhos e cores,
o manacá da serra era soberbo.
Arroubo, êxtase no espírito.
Confirmação.
Futuro e passado juntos. Presente.
Eu ai, sem estar.
Vida densa, extensa.
Em meus olhos, putas puras, anjos, bêbados, aprendizes, beatos, malandros, carrinheiras e cozinheiros, crianças, velhos, santas pecadoras e mães.
Fornos, holocausto. Shemá Israel.
Um átimo, uma toda vida.
Foi com meu pai, Azaquiel, que descobri o momento do florescer.
Nada mais viril, fragilidade.
Meigas, ásperas; como a existência, o ser.
Eu me percebo rosa.
Atinadas no haver mais que espinhos.
Gratuitas, oferecidas.
Tão donas de si, são roubadas.
Úteros em botões.
Artemísias.
Eu me sinto lírio.
Vestido de Salomão, sedutor como Salomé.
Cheiroso, necessitado de cuidados, efêmero.
Escondidos, eternos ao desabrochar da primavera.
Falo em flor.
Destino a ser sêmen.
Dama da noite.
Em me apercebo margarida.
Tantas, simples, comuns... aperfumadas.
Tão iguais, diversas, enganosas.
Sempre familiar.
Sofridas as margaridas.
Alegres, sonhos, devaneios, vassouras e marmitas.
Presas no turricado chão, estrada.
Muito dadas. Gulosas.
Vulva florida.
Marias-sem-vergonha.
Faço-me cravo.
Despudorados e orgulhosos.
Prontos para o casório.
Copo de leite.
Sou jasmim, magnólia, gira-sol.
Macho como uma orquídea.
Só, torno-me flor; muitas, sou jardim.
Sou æl, Emanuel.
Conheci Deus.
Deu-se a travessia.
Fiat terraum!